Maré

By lak

I.

Senti uma náusea quando passava na cidade
alguns passos faziam-me querer não ser –
nunca somos o que gostaríamos ao ver
que o caminho sem querer se percorreu.
Onde está onde íamos? Que se perdeu?
Fechar as portas da percepção é escusado
falta o cheiro teu e a força da vontade
que o valor da acção nem mesmo inebriado…

Quando pensei que o corpo era de novo meu
e que a liberdade me fora afinal devolvida,
nada do que dei era real neste apogeu.
Esta ilusão restituída é vã maldade
de algum destino que banal inacreditado
se fez valer da falta e da vaidade.
Perdendo o balanço vital da descida
onde procurar o sentido que se perdeu?

Prendi a ré a saudade na força das velas
que da borrasca só me evitaram a deriva,
a tinta são as sequelas que o vento respira
quando olho em segredo a marca indistinta.
Sinto ainda na pele o sabor da saliva
o brilho insolúvel no rasgo das telas
e o calor que arrasto e afasto e transpira
são faixa essencial que evita que minta.

II.

No trilho forçado que se abre e desdobra
chega efusiva e sem espera uma vaga
e é tal o silêncio que em vácuo me afoga.
Quando a rua sentiu no meu passo a vitória
e das janelas a reprova esquiva do olhar –
não sei se o que digo é verdade e se vibra –
mas esta calma que é nova e tem glória
alerta atrevida: tudo pode falhar!

Mas não é condição suficiente esta prova
que da estrada e do pó me faça atalhar
porque a traça é já pedra cinzelada,
vício de estar, a acção cansa e agrada.
Escavo à força a crosta grossa da cova
e consciente do percurso posso voltar,
não são definidas as vias da emoção
que enfiem definitivas raízes no chão.

Na casa onde fica escondido o casulo
ficam também os tesouros nas frestas,
coisas de ti e de ti que acumulo –
não olho não quero perdido no mundo.
Sei que há tempo na volta para festas
mas agora no vento e sem norte à deriva
é deixar que o sol lime as falsas arestas
que o couro aguenta… são partes da vida.

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